domingo, 15 de junho de 2014

sexta feira - da paixão

Os sentimentos que conheço também me doem. É possível que isso torne o título do meu blog bastante incoerente. Bem, isso foi apenas um pensamento ligeiro que me ocorreu por agora. Na verdade o que eu estou tentando entender é quando é que essa coisa de sentimento se esclarece para quem se aventura nele. Tenho a sensação constante, e já faz alguns dias, de estar completamente apaixonada. E trata-se de uma reflexão angustiante sobre o fato, pois no fundo, tudo que eu queria era deixar-me tomar por essas sensações de arrepio, de desejo, de saudade, de presença, de ausência, de ansiedade e de uma constante vontade de estar perto, corpo no corpo. Não consigo! Eu tenho a estranha mania de racionalizar tudo que se passa comigo e categorizar cada ação para encaixa-la em um sistema que a ciência, a filosofia, a literatura, a matemática, a biologia ou até mesmo a NASA consiga explicar.
 Permito-me sentir? Sim. Entrego-me, me liberto de tabus, deixo as experiências proliferarem sobre meu corpo. Mas por pouco tempo.
 Eu que não defendo o tempo cronológico dentro da poesia, não consigo escapar dele quando me dou conta de que a paixão apoderou-se de mim. E ela (a paixão), ora é fulminante, ora é delicada e suave. Ela fica rodopiando na minha cabeça como se fosse coreógrafo de escola de samba. Eu tento fugir das amarras que ela me apresenta, mas sem perceber, lá estou eu, enforcada por ela, implorando por um mínimo de oxigênio que ainda me permita respirar. Uma mistura de alegria e desespero. 
Dormir? Já não consigo há dias. A paixão também rouba o sono. Deixa-me na vigília do sentimento, tentando conexão com o alvo dela pela madrugada afora, pois ela acredita em telepatia, em todos os misticismos possíveis e na energia natural que ela afirma possuir.

Chega de usar a terceira pessoa. Já não entendo mais o que eu quero escrever. A paixão e Eu já não nos dissociamos mais. O que ela faz é o que eu faço. Ela me possuiu como uma daquelas entidades invocadas. 

 No fundo eu estou bastante intrigada com a maneira com que tudo começou. Eu me apaixonei antes... Antes mesmo de estar apaixonada. Me apaixonei antes do beijo, antes do sexo, antes de me dar conta de que eu precisa me dar conta. Não me apaixonei pelo gênero, pela estética, nem pela inteligência, como seria mais provável acontecer. Me apaixonei pelo que eu não via, pelo que eu não tinha. Me apaixonei pela delicadeza de nem mesmo ser percebida naquela fantasia toda que eu criava quando estava próxima daquele ser.

O meu desejo é tão imenso que conduz minha direção de forma a contrariar todas as minhas razões. E eu já não consigo mais textualizar essa coisa estranha que é estar apaixonada. Vou me refugiar em Roland Barthes pra finalizar o que meus dedos já encerraram. 

    O Coração é o órgão do desejo (o coração se dilata, falha, etc.; como o sexo), tal como ele é retido, encantado, no campo do imaginário. O que é que o mundo, o que é que o outro vai fazer do meu desejo? Essa é a inquietude que reúne todos os movimentos do coração, todos os "problemas" do coração. 


                                                           (Fragmentos de um discurso amoroso, pag. 64)

Um comentário:

O solitário Jim disse...

Escrever para ela(Paixão); desconhecida. Enigma.